Flusser ajuda a ver como é difícil ser dono do que se pensa

Villém Flusser lendo a sociedade da mídia e do pós mídia com apoio em Kafka.

Congresso Nacional - final dos anos 90. Foto: Sandro Alves

Congresso Nacional – final dos anos 90. Foto: Sandro Alves

 

“No centro da sociedade emergente, no centro dessa sociedade que deve ser alterada, encontram-se os emissores. Emissores são lugares viscosos que emitem raios imperativos para dispersar a sociedade. Quem deles se aproxima para participar ou para criticar, os perde de vista. Como o Deus de ‘Ângelus Silesius’: “quanto mais lhe tendes a mão, tanto mais se afasta”. Como o Castelo de Kafka. Os emissores são cebolas: podem ser “explicados” nível após nível, até não restar nada. É que nos centros das sociedades emergentes não há ninguém nem nada. Essa “descoberta” é sumamente desagradável. Quem estiver engajado em alterar a sociedade, descobrirá que não há ninguém nem nada contra o qual poderia engajar-se. Que termos como “luta” (ou qualquer equivalente dramático de cunho “historicista”) não mais se aplicam. É isto que o capítulo precedente chamou de “engajamento pouco espetacular”, e é isto que atualmente se impõe.

Gabeira estava lá no "Showmício". Creio que foi uma das primeiras vezes que esse termo que cruza em proveta o anglicano com o português foi usado: showmício. (Foto: Sandro Alves)

Gabeira estava lá no “Showmício”. Creio que foi uma das primeiras vezes que esse termo que cruza em proveta o anglicano com o português foi usado: showmício. (Foto: Sandro Alves)


Os emissores são lugares de algodão, lugares moles: ‘sofware’. Lugares onde se calcula, se computa e se programa. Há neles aparelhos que tendem a se tornar sempre menores e mais rápidos, bem como funcionários que apertam teclas e que tendem a constituir uma parte sempre crescente da comunidade. Quem se aproxima dessa cebola de algodão tem duas impressões erradas. A primeira é que os emissores atraem a sociedade como um imãs, para transformá-los em funcionários dos aparelhos. A segunda impressão é que os emissores tomam decisões que programam o comportamento da sociedade. Tais erros devem ser eliminados se quisermos captar aquilo de que se trata.

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É verdade que uma parcela cada vez menor da sociedade “trabalha”, enquanto que uma parte cada vez maior apenas “funciona”.” A gente não precisa mais “trabalhar” tanto (isto é, executar gestos que modificam a forma do mundo), já que os aparelhos automáticos o fazem mais rapidamente. Verifica-se então uma tendência rumo ao desemprego geral, se por “emprego” entendemos execução de trabalho. É verdade, pois, que uma maioria crescente da população “funciona” no sentido de apertar teclas que movem os aparelhos a trabalharem, a mudarem as formas, a INFORMAREM [grifo meu]. Mas isso não implica de modo algum que estejamos assistindo a emergência de uma nova “classe”, a dos funcionários, classe essa que estaria substituindo o campesinato e o proletariado. A razão é esta: “trabalhar” (seja no campo, seja com máquinas) é uma forma de vida, funcionar com aparelhos não é uma forma de vida.” (FLUSSER, Vilém. ‘O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade’. São Paulo: Annablume, 2008, p. 73-74). O livro de Flusser foi escrito no início dos anos 1980.

ssalvess
Sandro Alves Silveira

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