O contraditório rei das selvas tecnológicas

‎”O maior mistério que existe sobre a terra é o homem. Parece tão simples, tão tratável, e na realidade … é tão complexo! Diz uma coisa, e no instante seguinte, sem o menor pudor, diz o contrário e, se o chamamos de inconstante ou instável, sente-se mortalmente ofendido. […]”Lajos Egni. ‘The art of Creative Writing. The Citadel Press, Secaucus, N.J. (EUA), 1965, p. 29-30 ‘apud’ COMPARATO, Doc. ´Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p. 93.

Foto: Sandro Alves – Entre-imagens.

Há relógios inteligentes, pulseiras inteligentes, casas inteiras inteligentes, carros inteligentes, câmeras inteligentes, torneiras inteligentes, lixeiras inteligentes etc.

Isto, por si só, pensado isoladamente, é muito bom. Mas onde há gente inteligente? Gente que viva menos para o próprio umbigo e tenha coragem de romper com os vícios desumanos da nossa triste humanidade?

Será que dormiremos na porta da appple para comprar humanidade?

Falta, no meio de tanta “inteligência”, escalar valores que deem ,de fato, sentido à vida. Nossa vida anda muito carente de sentido, como muito bem comenta Win Wenders no filme ‘Janela da alma’.

E continuamos deixando às gerações vindouras o lastimável “legado da nossa miséria” (Machado de Assis na última sentença de Brás Cubas). Uma miséria de ritmo e velocidade de mudanças, de incapacidade de reagir com força às mais elementares e ordinárias vilezas e desumanidades em geral. Chega de tanto louvor à paz, à quietude e à harmonia da alma. Há conflito, há perturbação, carecemos de turbilhões. Ou, ao menos, uma mínima dose de inquietude em meio à ‘nirvanesca’ harmonia. Na verdade, figuração de harmonia, máscaras de paz, equilíbrios ‘fakes’. Falso equilíbrio de espírito que se propaga com a mesma quantidade e cegueira da inteligência das pulseiras.

Depois desta meu ímpeto romântico e quase nostálgico, vamos à quem trata com propriedade do assunto:

Villém Flusser lendo a sociedade da mídia e do pós mídia com apoio em Kafka.

A partir do mesmo ponto, um trecho maior do capítulo “Programar”, de “Elogio da superficialidade” de Vilém Flusser:
No centro da sociedade emergente, no centro dessa sociedade que deve ser alterada, encontram-se os emissores. Emissores são lugares viscosos que emitem raios imperativos para dispersar a sociedade. Quem deles se aproxima para participar ou para criticar, os perde de vista. Como o Deus de ‘Ângelus Silesius’: “quanto mais lhe tendes a mão, tanto mais se afasta”. Como o Castelo de Kafka. Os emissores são cebolas: podem ser “explicados” nível após nível, até não restar nada. É que nos centros das sociedades emergentes não há ninguém nem nada. Essa “descoberta” é sumamente desagradável. Quem estiver engajado em alterar a sociedade, descobrirá que não há ninguém nem nada contra o qual poderia engajar-se. Que termos como “luta” (ou qualquer equivalente dramático de cunho “historicista”) não mais se aplicam. É isto que o capítulo precedente chamou de “engajamento pouco espetacular”, e é isto que atualmente se impõe.

Os emissores são lugares de algodão, lugares moles: ‘sofware’. Lugares onde se calcula, se computa e se programa. Há neles aparelhos que tendem a se tornar sempre menores e mais rápidos, bem como funcionários que apertam teclas e que tendem a constituir uma parte sempre crescente da comunidade. Quem se aproxima dessa cebola de algodão tem duas impressões erradas. A primeira é que os emissores atraem a sociedade como um imãs, para transformá-los em funcionários dos aparelhos. A segunda impressão é que os emissores tomam decisões que programam o comportamento da sociedade. Tais erros devem ser eliminados se quisermos captar aquilo de que se trata.
É verdade que uma parcela cada vez menor da sociedade “trabalha”, enquanto que uma parte cada vez menor apenas “funciona”.” A gente não precisa mais “trabalhar” tanto (isto é, executar gestos que modificam a forma do mundo), já que os aparelhos automáticos o fazem mais rapidamente. Verifica-se então uma tendência rumo ao desemprego geral, se por “emprego” entendemos execução de trabalho. É verdade, pois, que uma maioria crescente da população “funciona” no sentido de apertar teclas que movem os aparelhos a trabalharem, a mudarem as formas, a INFORMAREM [grifo meu]. Mas isso não implica de modo algum que estejamos assistindo a emergência de uma nova “classe”, a dos funcionários, classe essa que estaria substituindo o campesinato e o proletariado. A razão é esta: “trabalhar” (seja no campo, seja com máquinas) é uma forma de vida, funcionar com aparelhos não é uma forma de vida.” (FLUSSER, Vilém. ‘O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade’. São Paulo: Annablume, 2008, p. 73-74). O livro de Flusser foi escrito no início dos anos 1980.

ssalvess
Sandro Alves Silveira

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