Catedrais e a monumental ‘mediocridade média’ II

Catedral e serpentes (foto: Sandro Alves)

“[…] Nas situações decisivas da vida, em que cada instante esconde um futuro prenhe de consequências e mantém a alma em tensão nos momentos fatídicos, também os Antigos viviam na expectativa dos sinais dos deuses, a que chamavam … symbola(Friedrich Creuzer, apud Walter Benjamin. Origem do drama trágico alemão. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p.174).

Li uma postagem de artista contemporâneo (o escultor Miguel Simão) e fui levado a certas considerações. Ele falava de edificações do tipo catedrais, capelas e afins (as da Europa, especificamente) e do que eu relaciono com os conceitos de “gosto bárbaro” e “arte média”, que encontramos em ‘Un art moyen’, de Pierre Bourdieu, publicado em 1965.

Acontece que a leitura do texto do artista despertou em mim umas ideias, tive uns estalos (minha tradução para ‘insght’ , é ‘estalo’) amparados em estudos que empreendi há uns dois anos sobre rastros do cristianismo na arte moderna.  Findei escrevendo o que se segue; prometo, para uma próxima edição desta postagem, clarear mais sobre Catedrais e turistas brasileiros fúteis e rasos culturalmente.

O que li me lembrou de como andei entendendo a relação da arte do romantismo e neoclacissismo com o Cristianismo. As ideias, bem vagas, ainda mais sentimento e confusões pensadas que ideias claras e organizadas, surgiram da releitura, mais ou menos recente, de alguns capítulos do ‘Arte Moderna’ Argan. E também de leituras dinâmicas, randômicas, curtas e confusas, de uma coletânea de texto dos românticos. Isso me levou ao ceticismo dos minimalistas e seus rebentos (como o agora presente Richard Serra) segundo a perspetiva de Rosalind Kraus.

Também frequenta esta mesma nebulosa de quase ideias, de pensamentos esparsos, dilatados e relativamente livres, as concepções críticas de Krauss sobre a originalidade na arte e também sobre (e isto nasce nos textos dela sobre o minimalismo) a arte não ser esse lance: o artista, iluminado, com percepção e ‘imaginação’ (esta entidade romântica tão cara aos modernos via Baudelire e outros, ainda muito presente) privilegiadas, trabalhou a matéria e deixou ali mil indicações de seu percurso neste trabalho; percurso que, por sua vez, veicula a iluminação e imaginação e genialidade dele ao espectador, ao público, no momento da fruição ou da recepção. A tarefa não é docinho de coco para quem quer fazer e pensar a arte de forma consequente, forte, contundente e, até, transgressora (arte que entra em embate com inércias da sociedade contemporânea, da história e da arte atual). Mas eu creio que está por aí. “Está aí pelos cantos, mas tá escuro prá poder encontrar”, nessa Modernidade Tardia, nessa supermodernidade, nesse neobarroco tão bem poetizado por Raul Seixas nesta canção:

Século XXI

Raul Seixas

Há muitos anos você anda em círculos
Já não lembra de onde foi que partiu
Tantos desejos soprados pelo vento
Se espatifaram quando o vento sumiuVocê vendeu sua alma ao acaso
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços
Cacos de vida de uma vida inteira

Se você correu, correu, correu tanto

E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI

Você cruzou todas as fronteiras
Não sabe mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura
Por um tempo que faz tempo passou

Agora é noite na sua existência
Cuja essência perdeu o lugar
Talvez esteja aí pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI.

Abaixo rascunho de continuidade desta postagem ou de início de nova:

O modo como eles fotografam as catedrais atende um pouco à secularização dentro da qual a fotografia opera, segundo o texto abaixo de Barthes. Mas fica incompleta e ruim a consideração que faço — na angústia deste tempo onde o tempo importa tanto — se não punccionarmos o dedo direto na ferida do “gosto bárbaro” (do clichê, da pobreza estética e outras mazelas) dos fotógrafos de classe média dos anos 50 e 60. Turistas, grande parte das vezes, turistas praticantes da ‘art moyen’. Fica impossível entender a mediocridade destas fotografias digitais sofríveis feitas no interior de edificações antes não secularizadas sem referências a este texto tão complexo de Bourdieu. Fica então,infelizmente, apenas, no próximo comentário, só um trecho do ‘A câmara clara’, do Barthes (não tenho condições de trazer o Bourdieu agora, mas a Rosalind Kraus tem um boa abordagem dele no último capítulo do seu ‘O fotográfico’):

Aos Jovens fotógrafos e aos interessados na questão da Morte, um trecho do Clássico ‘A câmara clara’, de Roland Barthes:
“Todos esses jovens fotógrafos que se movimentam no mundo, dedicando-se à captura da atualidade, não sabem que são agentes da morte. É o modo como nosso tempo assume a Morte: sob o áblibi denegador do perdidamente vivo, de que o fotógrafo é de algum modo o profissional. Pois a Fotografia, historicamente, deve ter alguma relação com a “Crise de morte”, que come;Ca na segunda metade do século XIX; de minha parte, preferiria que em vez de recolocar incessantemente o advento da Fotografia em seu contexto social e econômico, nos interrogássemos também sobre o vínculo antropológico da Morte e da nova imagem. Pois é preciso que a Morte, em uma sociedade, esteja em algum lugar; se não está (mais ou menos) no religioso, deve estar em outra parte: talvez nessa imagem que produz a Morte ao querer conservar a vida. Contemporânea do recuo dos ritos, a Fotografia corresponderia talvez à intrusão, em nossa sociedade moderna, de uma Morte assimbólica, fora da religião, fora do ritual, espécie de brusco mergulho na Morte literal. A vida / a Morte: o paradigma reduz-se a um simples disparo, o que separa a pose inicial do papel final.”
(BARTHES, Roland. ‘A câmara clara: nota sobre a fotografia’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. pp. 137-138)

—————

  •  Resumindo: você fala de hábitos meldas de classe melga, que medíocre, se repete no improdutivo e fútil, no estéril ou no criador de monstruosidades nocivas ao humano e à natureza. E isto temperado com uma mentalidade colonizada em tempos que a própria ideia de colonização se transforma tanto. Fica nestes indivíduos uma coisificação de subprodutos medíocres da já um tando datada ideia de colonização. Estou tentando chegar no que você coloca com clareza: “complexo de vira-latas”. Mais ou menos por ai.

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