Flusser ajuda a ver como é difícil ser dono do que se pensa

Publicado setembro 20, 2014 por ssalvess
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Villém Flusser lendo a sociedade da mídia e do pós mídia com apoio em Kafka.

Congresso Nacional - final dos anos 90. Foto: Sandro Alves

Congresso Nacional – final dos anos 90. Foto: Sandro Alves

 

“No centro da sociedade emergente, no centro dessa sociedade que deve ser alterada, encontram-se os emissores. Emissores são lugares viscosos que emitem raios imperativos para dispersar a sociedade. Quem deles se aproxima para participar ou para criticar, os perde de vista. Como o Deus de ‘Ângelus Silesius’: “quanto mais lhe tendes a mão, tanto mais se afasta”. Como o Castelo de Kafka. Os emissores são cebolas: podem ser “explicados” nível após nível, até não restar nada. É que nos centros das sociedades emergentes não há ninguém nem nada. Essa “descoberta” é sumamente desagradável. Quem estiver engajado em alterar a sociedade, descobrirá que não há ninguém nem nada contra o qual poderia engajar-se. Que termos como “luta” (ou qualquer equivalente dramático de cunho “historicista”) não mais se aplicam. É isto que o capítulo precedente chamou de “engajamento pouco espetacular”, e é isto que atualmente se impõe.

Gabeira estava lá no "Showmício". Creio que foi uma das primeiras vezes que esse termo que cruza em proveta o anglicano com o português foi usado: showmício. (Foto: Sandro Alves)

Gabeira estava lá no “Showmício”. Creio que foi uma das primeiras vezes que esse termo que cruza em proveta o anglicano com o português foi usado: showmício. (Foto: Sandro Alves)


Os emissores são lugares de algodão, lugares moles: ‘sofware’. Lugares onde se calcula, se computa e se programa. Há neles aparelhos que tendem a se tornar sempre menores e mais rápidos, bem como funcionários que apertam teclas e que tendem a constituir uma parte sempre crescente da comunidade. Quem se aproxima dessa cebola de algodão tem duas impressões erradas. A primeira é que os emissores atraem a sociedade como um imãs, para transformá-los em funcionários dos aparelhos. A segunda impressão é que os emissores tomam decisões que programam o comportamento da sociedade. Tais erros devem ser eliminados se quisermos captar aquilo de que se trata.

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É verdade que uma parcela cada vez menor da sociedade “trabalha”, enquanto que uma parte cada vez maior apenas “funciona”.” A gente não precisa mais “trabalhar” tanto (isto é, executar gestos que modificam a forma do mundo), já que os aparelhos automáticos o fazem mais rapidamente. Verifica-se então uma tendência rumo ao desemprego geral, se por “emprego” entendemos execução de trabalho. É verdade, pois, que uma maioria crescente da população “funciona” no sentido de apertar teclas que movem os aparelhos a trabalharem, a mudarem as formas, a INFORMAREM [grifo meu]. Mas isso não implica de modo algum que estejamos assistindo a emergência de uma nova “classe”, a dos funcionários, classe essa que estaria substituindo o campesinato e o proletariado. A razão é esta: “trabalhar” (seja no campo, seja com máquinas) é uma forma de vida, funcionar com aparelhos não é uma forma de vida.” (FLUSSER, Vilém. ‘O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade’. São Paulo: Annablume, 2008, p. 73-74). O livro de Flusser foi escrito no início dos anos 1980.

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Sandro Alves Silveira

O contraditório rei das selvas tecnológicas

Publicado setembro 12, 2014 por ssalvess
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‎”O maior mistério que existe sobre a terra é o homem. Parece tão simples, tão tratável, e na realidade … é tão complexo! Diz uma coisa, e no instante seguinte, sem o menor pudor, diz o contrário e, se o chamamos de inconstante ou instável, sente-se mortalmente ofendido. […]”Lajos Egni. ‘The art of Creative Writing. The Citadel Press, Secaucus, N.J. (EUA), 1965, p. 29-30 ‘apud’ COMPARATO, Doc. ´Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p. 93.

Foto: Sandro Alves – Entre-imagens.

Há relógios inteligentes, pulseiras inteligentes, casas inteiras inteligentes, carros inteligentes, câmeras inteligentes, torneiras inteligentes, lixeiras inteligentes etc.

Isto, por si só, pensado isoladamente, é muito bom. Mas onde há gente inteligente? Gente que viva menos para o próprio umbigo e tenha coragem de romper com os vícios desumanos da nossa triste humanidade?

Será que dormiremos na porta da appple para comprar humanidade?

Falta, no meio de tanta “inteligência”, escalar valores que deem ,de fato, sentido à vida. Nossa vida anda muito carente de sentido, como muito bem comenta Win Wenders no filme ‘Janela da alma’.

E continuamos deixando às gerações vindouras o lastimável “legado da nossa miséria” (Machado de Assis na última sentença de Brás Cubas). Uma miséria de ritmo e velocidade de mudanças, de incapacidade de reagir com força às mais elementares e ordinárias vilezas e desumanidades em geral. Chega de tanto louvor à paz, à quietude e à harmonia da alma. Há conflito, há perturbação, carecemos de turbilhões. Ou, ao menos, uma mínima dose de inquietude em meio à ‘nirvanesca’ harmonia. Na verdade, figuração de harmonia, máscaras de paz, equilíbrios ‘fakes’. Falso equilíbrio de espírito que se propaga com a mesma quantidade e cegueira da inteligência das pulseiras.

Depois desta meu ímpeto romântico e quase nostálgico, vamos à quem trata com propriedade do assunto:

Villém Flusser lendo a sociedade da mídia e do pós mídia com apoio em Kafka.

A partir do mesmo ponto, um trecho maior do capítulo “Programar”, de “Elogio da superficialidade” de Vilém Flusser:
No centro da sociedade emergente, no centro dessa sociedade que deve ser alterada, encontram-se os emissores. Emissores são lugares viscosos que emitem raios imperativos para dispersar a sociedade. Quem deles se aproxima para participar ou para criticar, os perde de vista. Como o Deus de ‘Ângelus Silesius’: “quanto mais lhe tendes a mão, tanto mais se afasta”. Como o Castelo de Kafka. Os emissores são cebolas: podem ser “explicados” nível após nível, até não restar nada. É que nos centros das sociedades emergentes não há ninguém nem nada. Essa “descoberta” é sumamente desagradável. Quem estiver engajado em alterar a sociedade, descobrirá que não há ninguém nem nada contra o qual poderia engajar-se. Que termos como “luta” (ou qualquer equivalente dramático de cunho “historicista”) não mais se aplicam. É isto que o capítulo precedente chamou de “engajamento pouco espetacular”, e é isto que atualmente se impõe.

Os emissores são lugares de algodão, lugares moles: ‘sofware’. Lugares onde se calcula, se computa e se programa. Há neles aparelhos que tendem a se tornar sempre menores e mais rápidos, bem como funcionários que apertam teclas e que tendem a constituir uma parte sempre crescente da comunidade. Quem se aproxima dessa cebola de algodão tem duas impressões erradas. A primeira é que os emissores atraem a sociedade como um imãs, para transformá-los em funcionários dos aparelhos. A segunda impressão é que os emissores tomam decisões que programam o comportamento da sociedade. Tais erros devem ser eliminados se quisermos captar aquilo de que se trata.
É verdade que uma parcela cada vez menor da sociedade “trabalha”, enquanto que uma parte cada vez menor apenas “funciona”.” A gente não precisa mais “trabalhar” tanto (isto é, executar gestos que modificam a forma do mundo), já que os aparelhos automáticos o fazem mais rapidamente. Verifica-se então uma tendência rumo ao desemprego geral, se por “emprego” entendemos execução de trabalho. É verdade, pois, que uma maioria crescente da população “funciona” no sentido de apertar teclas que movem os aparelhos a trabalharem, a mudarem as formas, a INFORMAREM [grifo meu]. Mas isso não implica de modo algum que estejamos assistindo a emergência de uma nova “classe”, a dos funcionários, classe essa que estaria substituindo o campesinato e o proletariado. A razão é esta: “trabalhar” (seja no campo, seja com máquinas) é uma forma de vida, funcionar com aparelhos não é uma forma de vida.” (FLUSSER, Vilém. ‘O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade’. São Paulo: Annablume, 2008, p. 73-74). O livro de Flusser foi escrito no início dos anos 1980.

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Sandro Alves Silveira

Catedrais e a monumental ‘mediocridade média’ II

Publicado junho 2, 2014 por ssalvess
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Catedral e serpentes (foto: Sandro Alves)

“[…] Nas situações decisivas da vida, em que cada instante esconde um futuro prenhe de consequências e mantém a alma em tensão nos momentos fatídicos, também os Antigos viviam na expectativa dos sinais dos deuses, a que chamavam … symbola(Friedrich Creuzer, apud Walter Benjamin. Origem do drama trágico alemão. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p.174).

Li uma postagem de artista contemporâneo (o escultor Miguel Simão) e fui levado a certas considerações. Ele falava de edificações do tipo catedrais, capelas e afins (as da Europa, especificamente) e do que eu relaciono com os conceitos de “gosto bárbaro” e “arte média”, que encontramos em ‘Un art moyen’, de Pierre Bourdieu, publicado em 1965.

Acontece que a leitura do texto do artista despertou em mim umas ideias, tive uns estalos (minha tradução para ‘insght’ , é ‘estalo’) amparados em estudos que empreendi há uns dois anos sobre rastros do cristianismo na arte moderna.  Findei escrevendo o que se segue; prometo, para uma próxima edição desta postagem, clarear mais sobre Catedrais e turistas brasileiros fúteis e rasos culturalmente.

O que li me lembrou de como andei entendendo a relação da arte do romantismo e neoclacissismo com o Cristianismo. As ideias, bem vagas, ainda mais sentimento e confusões pensadas que ideias claras e organizadas, surgiram da releitura, mais ou menos recente, de alguns capítulos do ‘Arte Moderna’ Argan. E também de leituras dinâmicas, randômicas, curtas e confusas, de uma coletânea de texto dos românticos. Isso me levou ao ceticismo dos minimalistas e seus rebentos (como o agora presente Richard Serra) segundo a perspetiva de Rosalind Kraus.

Também frequenta esta mesma nebulosa de quase ideias, de pensamentos esparsos, dilatados e relativamente livres, as concepções críticas de Krauss sobre a originalidade na arte e também sobre (e isto nasce nos textos dela sobre o minimalismo) a arte não ser esse lance: o artista, iluminado, com percepção e ‘imaginação’ (esta entidade romântica tão cara aos modernos via Baudelire e outros, ainda muito presente) privilegiadas, trabalhou a matéria e deixou ali mil indicações de seu percurso neste trabalho; percurso que, por sua vez, veicula a iluminação e imaginação e genialidade dele ao espectador, ao público, no momento da fruição ou da recepção. A tarefa não é docinho de coco para quem quer fazer e pensar a arte de forma consequente, forte, contundente e, até, transgressora (arte que entra em embate com inércias da sociedade contemporânea, da história e da arte atual). Mas eu creio que está por aí. “Está aí pelos cantos, mas tá escuro prá poder encontrar”, nessa Modernidade Tardia, nessa supermodernidade, nesse neobarroco tão bem poetizado por Raul Seixas nesta canção:

Século XXI

Raul Seixas

Há muitos anos você anda em círculos
Já não lembra de onde foi que partiu
Tantos desejos soprados pelo vento
Se espatifaram quando o vento sumiuVocê vendeu sua alma ao acaso
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços
Cacos de vida de uma vida inteira

Se você correu, correu, correu tanto

E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI

Você cruzou todas as fronteiras
Não sabe mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura
Por um tempo que faz tempo passou

Agora é noite na sua existência
Cuja essência perdeu o lugar
Talvez esteja aí pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI.

http://www.youtube.com/watch?v=Bhar7dVRLWU

Abaixo rascunho de continuidade desta postagem ou de início de nova:

O modo como eles fotografam as catedrais atende um pouco à secularização dentro da qual a fotografia opera, segundo o texto abaixo de Barthes. Mas fica incompleta e ruim a consideração que faço — na angústia deste tempo onde o tempo importa tanto — se não punccionarmos o dedo direto na ferida do “gosto bárbaro” (do clichê, da pobreza estética e outras mazelas) dos fotógrafos de classe média dos anos 50 e 60. Turistas, grande parte das vezes, turistas praticantes da ‘art moyen’. Fica impossível entender a mediocridade destas fotografias digitais sofríveis feitas no interior de edificações antes não secularizadas sem referências a este texto tão complexo de Bourdieu. Fica então,infelizmente, apenas, no próximo comentário, só um trecho do ‘A câmara clara’, do Barthes (não tenho condições de trazer o Bourdieu agora, mas a Rosalind Kraus tem um boa abordagem dele no último capítulo do seu ‘O fotográfico’):

Aos Jovens fotógrafos e aos interessados na questão da Morte, um trecho do Clássico ‘A câmara clara’, de Roland Barthes:
“Todos esses jovens fotógrafos que se movimentam no mundo, dedicando-se à captura da atualidade, não sabem que são agentes da morte. É o modo como nosso tempo assume a Morte: sob o áblibi denegador do perdidamente vivo, de que o fotógrafo é de algum modo o profissional. Pois a Fotografia, historicamente, deve ter alguma relação com a “Crise de morte”, que come;Ca na segunda metade do século XIX; de minha parte, preferiria que em vez de recolocar incessantemente o advento da Fotografia em seu contexto social e econômico, nos interrogássemos também sobre o vínculo antropológico da Morte e da nova imagem. Pois é preciso que a Morte, em uma sociedade, esteja em algum lugar; se não está (mais ou menos) no religioso, deve estar em outra parte: talvez nessa imagem que produz a Morte ao querer conservar a vida. Contemporânea do recuo dos ritos, a Fotografia corresponderia talvez à intrusão, em nossa sociedade moderna, de uma Morte assimbólica, fora da religião, fora do ritual, espécie de brusco mergulho na Morte literal. A vida / a Morte: o paradigma reduz-se a um simples disparo, o que separa a pose inicial do papel final.”
(BARTHES, Roland. ‘A câmara clara: nota sobre a fotografia’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. pp. 137-138)

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  •  Resumindo: você fala de hábitos meldas de classe melga, que medíocre, se repete no improdutivo e fútil, no estéril ou no criador de monstruosidades nocivas ao humano e à natureza. E isto temperado com uma mentalidade colonizada em tempos que a própria ideia de colonização se transforma tanto. Fica nestes indivíduos uma coisificação de subprodutos medíocres da já um tando datada ideia de colonização. Estou tentando chegar no que você coloca com clareza: “complexo de vira-latas”. Mais ou menos por ai.

Despesas até no saimento?!

Publicado fevereiro 24, 2013 por ssalvess
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Depois de ver uma pos tagem, no facebook, sobre cimitério de animais, passei a considerar efêmeras questões relativas à morte. A minha mãe é uma dessas pessoas que quer cuidar das despesas funerárias antes de morrer. Sexta encontrei uma amiga muito tocada por mortes, muitas mortes, na família dela; algumas trágicas. Isso me faz pensar que desejo que o animal que sou não cause uma despesa dessas para os outros quando eu estiver no processo de virar pó. Fiquei muito indignado com um bancário que tentou me vender um seguro de vida, ano passado. Ele falou que os meus familiares ficariam livres de quase todos os incômodos com esquife e outros aspectos do meu saimento. Agora, curiosamente, me senti vencido pelas estratégias do tétrico vendedor. Sentimento animal! Maldito capitalismo tardio! É caro viver, é caro morrer! Me é cara a morte, mas esses rituais posteriores são um saco! Odeio velórios. E agora, pensando, gosto menos ainda deles. Eles custam muito caro! Vou saindo sem ir direto ao meu saimento; espero que este aconteça ainda em futuro distante. Foda vai ser quando a princeza (cadela do meu filho) necessitar de um mortório; ela já tem dez anos. A quem sobreviveu à leitura desse comentário, até aqui, desejo vida longa, a vocês e aos seus, humanos e não humanos.

A Xuxa no fantástico e a raiz melodramática da entrevista (para início de conversa)

Publicado maio 21, 2012 por ssalvess
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O melodrama, nascente no início do século XIX, é um catalisador da necessidade da burguesia de tornar público o privado. Temos o melodrama no teatro, a literatura de folhetim e, lá no século XX, surge então a radionovela (no México, não é?) e, enfim, a telenovela. Nessa última o Brasil é CAMPEÃO ÃO ÃO!

O gênero do reality show é um desdobramento das entrevistas em revistas — ou em TV — de celebridades (os Olimpianos do século XX para Edgar Morin).

A aparição da Xuxa no fantástico, ontem, demonstra a grande habilidade da mafiosa globo em lidar com gêneros de raiz melodramática. A regra de ouro do melodrama é a vítima desprotegida. No caso a vítima e heroína, em um só golpe, foi a XuxA. Esquema muito usado, mas feito com técnica e linguagem primorosos pela globo. O problema desses casos é que as pessoas são levadas a crer em aspectos positivos enquanto os negativos estão atrás da lona, na mesma mão que mexe com os cordões das marionetes.

Eller: furacão cênico e vocal!

Publicado março 2, 2012 por ssalvess
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Cássia Eller no Concerto Cabeças - 1987. Foto: Sandro Alves

Eu fotografei  Cássia Eller em shows antes do sucesso, aqui em Brasília. Por ocasião de uma homenagem, um ano depois seu falecimento, a Dornellas — amiga dela e organizadora do evento — não encontrou outras fotos da Cássia que fossem desse período e em cena, se apresentando  nos palcos; os fotógrafos faziam imagens tipo foto de moda dela e coisas variadas (em casa com os amigos, em um carrão hippie). Mas nos shows, não iam fotografar, não que eu me lembre. Existem, entretanto, vídeos interessantíssimos!

Era uma delícia registrar aquela monstruosidade cênica e de voz. Era toda quinta-feira no Bom Demais (bar de Brasília). Quando ouvi o disco dela levei um susto. Eram outros arranjos e eu não estava vendo ao vivo aquele furacão cênico, é claro! Em muitas imagens a fisionomia ficou distorcida por recursos expressivos da linguagem fotográfica. Ela me sacaneava muito, dizia que não era feia daquele jeito. Eu não fui amigo, não era uma relação pessoal, era só contato de fã mesmo, no gargarejo.

Uma vez disse a ela: “Agora eu entendo porque Deus não me deixou viver a adolescência nos anos 1960, para ver os Beatles, Hendrix, Mutantes etc. É porque ele tinha reservado para mim a Cássia Eller.” Primeiro ela disse que não estava à altura deles. Eu neguei. Então ela emendou dizendo que ninguém sabia quem era ela. Ao que respondi: “Por enquanto!”. Não precisava ser nenhum vidente, aquela mulher em cena era uma coisa muito fora do comum! Me sinto privilegiado. Fiz essas fotos da Cássia, ganhei um prêmio escrevendo sobre fotografia em Machado de Assis e tenho um desenho do Arnaldo Baptista com uma dedicatória! O que mais? Ah! Fui no show do Paul MacCartney! Como já tenho um filho maravilhoso, não sobra quase espaço na minha alma para plantar uma árvore… Mas vou plantar, vou plantar em um esquema ‘Let it bed’!

Cássia Eller, o percussionista Bani e, ao fundo, Eugênia, em 1987, no bar Bom Demais, fundado por Cristina Cesar e Cristina Borracha . Foto: Sandro Alves

Futebol, violência e revolução

Publicado fevereiro 2, 2012 por ssalvess
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“CAIRO, 2 Fev (Reuters) – A torcida organizada de futebol que teve papel de destaque na derrubada de Hosni Mubarak escolheu agora como alvo o marechal Mohamed Hussein Tantawi, atual homem forte do país.”   (http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE81101Z20120202 )

A relação dos esportes com a violência, especialmente do futebol, se manifesta de forma interessante, no Egito. Torcedores de um dos times egípcios foram muito atuantes nas recentes manifestações políticas de rua no país. Os esportes (a arena do futebol), lugar onde as pulsões reprimidas desde o quatrocentos se concentram e são tratadas, oferecem vazamentos. Os ‘hooligans’ são um exemplo.

Norbert Elias afirmava que o futebol acontecia de forma especial na Inglaterra. Ele não viveu para ver como torcedores egípcios canalizaram sua violência de maneira produtiva visando mudanças políticas. Tudo indica que a não interferência da polícia na briga de torcidas de ontem foi uma vingança contra a torcida desse time, do qual não me lembro o nome, que foi bucha de canhão nas manifestações de rua que derrubaram a ditadura no país.


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